A planta da feira da CeBIT 2004 reflecte o início de um processo de revolução da programação do maior evento europeu na área das TIC, numa tentativa de reverter as perdas ao nível do número de expositores e visitantes registadas nos últimos anos. A ideia está em criar áreas verticais específicas que respondam às necessidades dos visitantes. Este e outros projectos são explicados por Reinhold Umminger, director da CeBIT, numa entrevista em primeira-mão ao Portal Centro de Contacto, onde comenta também as razões da fraca participação das empresas portuguesas.
Centro de Contacto O tema da convergência, associado ao conceito de banda larga, foi a pedra de toque da CeBIT 2003. Qual será a aposta na edição do próximo ano?
Reinhold Umminger A grande aposta da CeBIT 2004 será em torno do conceito de mobilidade. Todos os países europeus estão a apostar no UMTS e também no Wireless LAN (Wi-Fi). Em relação a esta tecnologia já existem bastantes hot-spots em locais tão distintos como aeroportos, universidades e hotéis.
CC Desde 2001 temos assistido a um decréscimo dramático do número de expositores, de visitantes e de área de exposição. Como justifica esta quebra?
RU Nos últimos 10 anos a indústria das TIC duplicou o seu volume de negócios. O facto de agora estarmos numa época de estagnação tem afectado muitas empresas. Algumas saíram completamente de cena. Outras reduziram os gastos com actividades de marketing e participação em feiras. É claro que todo este cenário afectou sobremaneira a CeBIT. Temos consciência desta quebra mas, se nos compararmos com eventos similares, continuamos a ser líderes neste mercado.
CC Mas estas quebras não reflectem também o formato no qual assenta a feira? Que iniciativas é que a Deutsche Messe está a levar a cabo para reverter este números?
RU O formato da CeBIT está a ser renovado e repensado. Aquilo que iremos ter em 2005 já será bastante diferente do que tivemos este ano. A CeBIT 2004 será, por isso mesmo, um momento de transição. Nos últimos anos, a nossa feira tem assentado num formato bastante horizontal, muito orientada para o produto. A nossa meta para a edição do próximo ano, mas sobretudo para 2005 e 2006, é verticalizar as soluções e aplicações para a indústria das TIC.
Sentimos que temos de atrair directamente o visitante, focando-nos nos seus problemas e nas soluções que existem para os resolver. Isto significa que, em edições futuras, já não iremos ter uma série de pavilhões dedicados à área de Software & Services. Vamos antes dividir esta área em sub-sectores, como, por exemplo, soluções de CRM, ERP, SCM ou de PLC. Desta forma, pensamos dar ao visitante a possibilidade de ver e obter informações sobre as soluções que lhes dizem directamente respeito.
CC Quais são as expectativas da Deutsche Messe para este ano em termos de número de expositores e visitantes?
RU Temos consciência que 2004 ainda vai ser um ano complicado para muitas empresas. Por isso, ficaríamos bastante satisfeitos se conseguirmos o mesmo número de expositores do ano passado [6602, contra 7264 em 2002]. Temos notado uma alteração no comportamento dos expositores no que diz respeito à reserva de espaço. Nos últimos anos, a CeBIT costumava esgotar no mês de Setembro antes da feira. Neste momento ainda estamos a receber reservas. As empresas estão a deixar para cada vez mais tarde a decisão de participar na feira.
Para este ano esperamos entre 6 mil a 6500 expositores. Isto representará uma quebra de 10 por cento em relação a 2003, mas penso que 10 por cento, numa área como esta, é um resultado bastante bom. As contas em relação ao número de visitantes são bastante mais difíceis de fazer. O ano passado registamos 560 mil visitantes [contra 675 mil em 2002] de quase 100 países. Esperamos que na Primavera de 2004 as nuvens que pairam sobre a indústria das TIC se desvaneçam e que mais pessoas possam ir á feira para investir.
CC A edição do último ano introduziu um fórum de elite para a área das TIC e uma iniciativa especial para a área das PMEs. Que novidades têm agendadas para 2004?
RU O ICT Forum terá continuidade no próximo ano entre os dias 17 e 19 de Março. Já temos confirmadas as presenças de Arun Sarin, CEO da Vodafone, de Tom Siebel, CEO da Siebel Systems, de René Obermann, CEO da T-Mobile International e de Robert Bishop, CEO da Silicon Graphics. Penso que é extremamente importante reunir os CEOs das maiores empresas internacionais num mesmo fórum.
Estamos neste momento a trabalhar num grande projecto para o sector das PMEs porque acreditamos que estas companhias, espalhadas pelos mais diversos ramos de actividade, irão investir nas TIC. Nos últimos três anos as PMEs reduziram os seus volumes de investimento, o que contribuiu, em parte, para a desaceleração económicas a que temos estado a assistir.
Na edição de 2004 teremos uma espécie de ponto de encontro no hall 6 da feira, onde os investidores das PMEs poderão assistir a apresentações focalizadas, bem como a discussões sobre temas actuais. A partir desse ponto iremos conduzir os visitantes até aos expositores. Temos cerca de 10 temas principais, que incluem processos de negócio ou segurança, e que procurarão responder às necessidades específicas deste grupo de utilizadores.
Este ano vamos também introduzir um espaço temático para o sector do e-government, o Public Sector Parc. No hall 11 termos uma área dedicada, com cerca de 6500 metros quadrados, que corresponderá a uma reformulação do anterior ENAC. Neste espaço teremos 208 expositores que irão demonstrar as suas soluções para o sector do e-government. Irá também haver lugar para conferências, debates e seminários relacionados com o tema.
CC Que novidades são esperadas para os sectores dos call / contact centers, CRM e telecomunicações?
RU Temos estado em contacto com alguns fabricantes de soluções de contact centers e CRM, nomeadamente com a Siebel e também com aqueles que participaram na CRM Expo de Essen. O CRM é uma das áreas que consideramos fundamentais na feira. Não temos ainda nenhuma iniciativa específica para esta área, mas iremos certamente rever esta questão para a edição de 2005.
A área das telecos é um domínio bastante extenso. Temos actualmente 7 halls ocupados pela área das telcos. Também a este nível iremos, em edições futuras, proceder a alterações de fundo. A área das telecomunicações é muito geral e abrangente. Temos de identificar campos verticais para que o visitante possa facilmente encontrar as soluções que pretende.
CC O último ano foi provavelmente o mais fraco para Portugal com apenas três empresas representadas (contra as 25 da Polónia e as 9 da Lituânia e da Roménia). Como explica este facto? Tem alguma iniciativa em mente para reverter esta tendência?
RU Penso que a situação do país está um pouco difícil. Para resolver este problema é necessário que todos os agentes puxem a corda para o mesmo lado. É necessário que as associações que representam as empresas portuguesas trabalhem em conjunto e que encontrem forma de atrair a participação estatal no apoio às incitavas de internacionalização. Penso que em Portugal cada um trabalha apenas para si próprio e não há objectivos comuns.
No próximo ano irei deslocar-me pessoalmente a alguns países da América Latina, numa tentativa de atrair mais representação desta área. Como existem laços linguísticos e culturais fortes destes países com Portugal e Espanha, vamos também tentar que mais empresas portuguesas estejam presentes utilizando este chamariz.
CC Como é que avalia o papel do ICEP em todo este processo?
Não quero interferir em questões que dizem apenas respeito a Portugal. Cabe ao ICEP descobrir qual são as áreas que quer, de facto, apoiar ao nível da internacionalização. Penso que a área das TIC apresenta um potencial de crescimento bastante acentuado no futuro, apesar da desaceleração a que assistimos nos dois últimos anos.
Considero que é bastante importante para Portugal não apostar apenas no turismo. É necessário também que mantenha elevados os níveis de exportações na área das TIC, principalmente se atendermos ao desenvolvimento verificado nos países da Europa de Leste. Não creio que as empresas destes países tenham mais dinheiro do que as portuguesas…
Filipe Samora
2003-11-27
Em Foco – Pessoa